
Desde a semana passada ocorreu nas redes sociais um fenômeno que mais se assemelha a uma epidemia. No vídeo de uma propaganda veiculada no Youtube, uma família participa de um comercial de venda de imóveis e o nome Luiza é citado como ausente, "... menos a Luiza, que esta no Canada". Ou seja, apenas um nome ganha repercussão nacional em poucas horas sem sequer a garota esperar que isso pudesse ocorrer. Ao mesmo tempo o programa Big Brother Brasil (Reality Show) veiculado pela Rede Globo de Televisão, publica em várias mídias um suposto estupro ocorrido em uma das festas do programa, onde um dos participantes fica bêbado juntamente com outra participante, vão ao quarto e transam debaixo do edredom. No primeiro acontecimento (Luiza), podemos perceber que ocorre um movimento da coletividade em que tornar um anônimo famoso pode acontecer a qualquer momento, que as pessoas quiserem. O colocar em evidência pode ocorrer com qualquer um do dia para a noite. Muitos criticaram as duas notícias por soarem muito superficiais, como se nosso país fosse desprovido de cultura e o que impera é na verdade um enorme tédio.
Partindo do pressuposto que nos enraizamos de um inconsciente coletivo, somos todos seres históricos por natureza, todos, sem exceção estamos determinados pelo passado e futuro na construção de um presente. Tal fenômeno de dar evidência, visibilidade e exposição, atualmente fundamenta nossa sociedade onde todos confundem exposição com existência. Ou seja, para muitos cidadãos que se julgam sem valor e importância, talvez a única forma de se sentirem “alguém”, é ganhando visibilidade, aparecendo na mídia independente de como isso se dá. As mídias nesse sentido (principalmente a Globo) se tornam o único meio de consideração da própria existência, digo, não a mídia propriamente falando, mas o que esta representa, o ganhar existência a partir dos olhos dos outros, mas não só isso, a coisa chega ao ponto de se transformar em uma reificação. Nesse sentido, precisar forjar um estupro para ter visibilidade, ibope, é na verdade um sensacionalismo neurótico que é compensado na ironia coletiva da Luiza (identidade anônima), como se as pessoas preferissem reconhecer um anônimo (dar visibilidade a um nome) ao ver um exibicionismo fetichista de identidades produzidas e vazias de sentido sendo colocadas para a boca abaixo dos brasileiros.
Ou melhor, é preferível reconhecer-se como anônimo a ser como a mídia quer que sejamos (loiras, peitudas, bundudas, morenas, musculosos etc). Como se a mídia tivesse que definir nossas subjetividades, dar existência a formas de ser. Isso soa como pura arrogância e pretensão, um auto endeusamento. Porém ocorreu um movimento que contrapôs tudo isso, é como se o inconsciente coletivo “dissesse”, "Podemos muito mais do que isso, podemos dar evidência a um anônimo de verdade, tanto quanto vocês (olha a ironia), podemos evidenciar Luiza". Luiza, portanto representa a pessoa comum, aquém e além da mídia, a subjetividade que pode ser como quer e ainda sim ter uma identidade, ser alguém. A criatividade está nisso, o espírito das profundezas do inconsciente parece desejar isso de todos nós, que reconheçamos em nós mesmos, a capacidade de dar um sentido de existência a nós mesmos saindo de toda e qualquer fôrma que é na verdade um estupro midiático.
“O vento sopra onde quer. Ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai. Assim é todo aquele que é nascido do Espírito” - João 3:8.

Interessante analise Renato. Apesar de não ser Junguiano reconheço os argumentos e a factualidade da constatação do inconsciente coletivo, e principalmente seu poder.
ResponderExcluirEu achei interessantíssimo como embasou racionalmente, dentro de uma ferramenta de estudo social que eu muito acredito, o inconsciente coletivo.
ResponderExcluirParabéns Renato.
Muito bem observado. É irônico mesmo que alguém se torne famoso pela opinião gregária enquanto a mídia (formadora da opinião gregária) tenta criar famosos nesse BBB.
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