
O interessante da psicologia de Jung a meu ver, e o que me chamou mais a atenção, foi o estilo de pensamento dialético. A partir dessa matriz aquetípica de pensamento várias escolas filosoficas se ergueram como a filosofia Hegeliana, a filosofia de Heráclito a maior parte do pensamento oriental e a mais antiga delas, o gnosticismo primitivo. O que mais me encanta nos pensamentos e fenomenos opostos, não é a oposição em si, mas muito mais a complementação entre estes, onde a unidade se faz no paradoxo das coisas.
Pois bem, hoje tentarei explanar sobre as caracteristicas do arquétipo ou campo experiencial da sombra, que segue uma dinâmica oposta ao arquétipo da persona (explicado logo abaixo) porém ambos se complementam.
Diferentemente da persona, a sombra é o nosso aspecto mais oculto e negro, são todas as experiências de cunho negativo a qual de uma forma ou de outra a reprimimos, porém apesar do nome talves causar uma certa desconfiança ao leigo, devo clarificar que a sombra se refere ao nosso polo negativo, não necessariamente algo traumático. Achei brilhante a explicação que nos dá Stein (2006, p. 97) quando diz que: "A Sombra é a imagem de nós próprios que desliza em nossa esteira quando caminhamos em direção a luz". Isso afirma o pressuposto paradoxal de que só caminhamos em direção a uma luz a partir da perspectiva de seu oposto, a sombra. Logo, é necessário tal experiencia, já que esta tem muitas vezes a função de colocar-nos em "nosso lugar", e mostrar que não somos deuses, e que temos nosso aspecto negativo, caso contrário pode ocorrer uma inflação egoica ou até mesmo uma psicose.
Jung entendia a psique simbolicamente como uma esfera, onde nossas fronteiras conscientes são delimitadas, mas nosso mundo interior é como um labirinto que possui muitas armadilhas, mas também onde se encontram os maiores tesouro traçando um paralelo na mitologia com a trajetória do herói. Logo, se a persona é a casca, a máscara, a sombra é um complexo opositor que se encontra mais a fundo, mas ainda sim na periferia.
Stein ainda nos mostra que a sombra funciona como o sistema de espionagem de um pais, onde existe mas ninguém vê, e nosso ego na maior parte do tempo a ignora. Na sombra reside todos aqueles conteúdos que nós não queremos ser pela busca de nosso ideal que é de extrema importancia, porém quando uma pessoa se prende a esse ideal de forma a atravancar sua vida, isso pode significar uma defesa, ou resistencia a um possivel desenvolvimento.
Jung via que o confronto com o inconsciente diz respeito além de tudo, ha um impasse moral, onde a pessoa deve colocar em xeque todas as esferas de sua vida. Em outras palavras, o problema da moral se apresenta psicologicamente quando uma pessoa encara a questão de saber no que ela pode se tornar em comparação com que ela irá se tornar se determinadas atitudes forem mantidas, decisões tomadas ou ações estimuladas sem reflexão. Isso significa também entrar em contato com nossa dimensão mais obscura, encarando a verdadeira face de quem somos.
Um filme que ilustra bem o poder que a sombra exerce sobre nossa vida, é o Amigo Oculto onde é descrito um caso de dissociação em que o sujeito pensa ser e agir de uma forma, mas em seus lapsos é e age sob o domínio da sombra. Tal evento segundo a ótica junguiana se dá a partir da enantiodromia (conceito usado por Heráclito que diz respeito a compensação energética onde os lados trocam de lugar temporariamente até que ocorra um reequilíbrio), onde o arquétipo quando muito recalcado, assume o controle da consciencia dominando-a. Isso significa, que não existe como eliminar nossa face oculta sem assim estarmos indiretamente tentando eliminar nossos ideais mais elevados. Por isso Jung expõe que sempre devemos manter um diálogo com nosso aspecto sombrio, não o deixando nos possuir mas dando sempre um caminho aceitável (do ponto de vista ético) a essa nossa dimensão, sendo o Self, muitas vezes o arquétipo de tal integração. Vemos assim que o confronto com nossa sombra diz respeito a estruturação de nosso caráter, e em uma dimensão mais ampla, de nossa personalidade, possibilitando assim que ocorra a individuação, o tornar-se aquilo que se é.

Que fantástico que é o teu blog, Renato! Eu te achei por que postei um texto sobre Ecologia Profunda, e citei o novo livro do Deepak Chopra,'O Efeito Sombra',onde ele e suas co autoras discutem como lidar com os nossos 'demônios', de uma perspectiva da literatura de auto ajuda - que eu particularmente não aprecio, mas que tem sua função.Daí eu te linkei , espero que não te importes.Meu nome é Rose,e o blog é:http://nomadigital.blogspot.com/
ResponderExcluirVou voltar sempre aqui agora.
À medida em que aprofundam os estudos sobre a psique humana, mais e mais vertentes do self começam a se destacar, tais como prisioneiros que, ao se verem livres de seus grilhões, percebem um veio de luz distante; eles caminham em direção a esta luz que aos poucos vai aumentando até se tornar tão vasta e calorosa que consegue cegá-los por um momento. Passa-se um tempo indizível em que estas pessoas começam a se acostumar com esta luz e logo elas conseguem discernir o que está diante delas, são capazes de perceber a vida ao seu redor e de entender que precisavam passar por sofrimentos e atribulações para chegar até onde estão. A partir deste exemplo, as sombras como arquétipo podem ser tanto os grilhões como a incapacidade de atinar que exista algo além daquela caverna escura e daquela existência fixa. É necessário entender que mesmo que coexistam com funções e características diferentes, os arquétipos são ambivalentes e esta sina é desvendada mediante o processo psicoterapêutico aliado à intencionalidade de permitir-se adentrar em uma jornada de autoconhecimento que possa satisfazer ao andarilho de sua psique no caminho para um presente melhor.
ResponderExcluir