segunda-feira, 7 de maio de 2012

O Vínculo na Infância e o Desenvolvimento da Personalidade.

           

Já é bem conhecido na psicologia tanto quanto em nossa cultura que a infância é geradora e determinante da maioria dos traços psicológicos que carregamos em nossa existência. A partir de Freud e a pesquisa empreendia por ele das etapas do desenvolvimento psicossexual foram de extrema importância para detectarmos o efeito causal de muitas neuroses que assolam nossa sociedade. Porém, tal estudo serviu a sociedade da década de cinquenta, tal qual do século passado. Tendências dissidentes da psicanálise e que hoje se mostram mais adequadas ao olhar moderno e pós-moderno parecem ilustrar melhor tal desenvolvimento como a Psicologia Junguiana (especificamente de Eric Neumann) e a psicologia da ligação de John Bowlby.

O primeiro ano de vida segundo (NEUMANN, 1980), deve ser considerado uma extensão embrionária e a criança depende totalmente dos cuidados maternos tanto física quanto psiquicamente. A mãe se constitui como um mundo inteiro. Isso é denominado, relação-primal mãe-bebê ou fase urobórica. A partir de então a criança começa a se desenvolver até entrar no reino da cultura que envolve os costumes e a linguagem de seu grupo humano. Os passos dados em direção à cultura requer que a criança em desenvolvimento consiga lidar com certas frustrações como abandonar o seio materno e se arriscar cada vez mais para conseguir ser um ser social, portanto, em um primeiro momento ela ainda é parte do grupo, vivencia isso como uma identificação inconsciente ou participação mística.

Logo, se relacionar com outra criança ou aprender a solidariedade vendo o outro como semelhante é o passo fundamental para a entrada no mundo da cultura. Em todas as etapas do processo de desenvolvimento psicológico haverá um conflito de ordem natural sendo este inerente a condição humana. Porém, a questão para a maioria de nós se situa em saber, quando um conflito psicológico atinge o nível onde pode ser considerado uma patologia? Pois bem, muitos relacionamentos entre mãe e filho não evoluem em nossa sociedade permanecendo em um vínculo mãe-bebê. Tal relação quando se torna regressiva faz com que os cuidados da mãe enveredados a criança sejam sentidos como um entrave sobrepondo outro instinto que foi recalcado.

Para que a criança possa chegar a ser um indivíduo autônomo precisa (como em todas as tribos indígenas) de um ritual de passagem, uma situação que deve marcar o fim de uma etapa e o início de outra. Eric Neumann (1980) chamou essa nova etapa de fase solar do ego marcando a entrada da criança no mundo masculino onde para conseguir ser amado precisa buscar o próprio valor nas virtudes de honra, coragem e caráter. Sem essa transição a criança fica situada em um reino matriarcal terrível onde o vínculo materno já não produz influências positivas, mas muito mais negativas onde a raiva e o protesto tomam conta do campo vivencial da criança contra o social. Assim ocorre uma experiência de ligação desligada com a mãe, o filho serve aos propósitos inconscientes dela (compensando o amor de um homem), ela vive uma relação eu-isso com o filho e este reproduz essa mesma relação com o mundo social podendo beirar a psicopatia.

Antes de a nossa criança conseguir manter uma relação saudável com o mundo social, primeiro ela além de passar por um ritual de passagem para o arquétipo do grande pai, deve ter condições de realizar essa transição. Para isso é preciso que a mãe tenha tido uma boa relação com o pai ou esteja consciente do que provoca algum problema. Assim como nos mitos e lendas onde Maria intercede pelo filho junto ao Pai (Deus), também deve ser no plano vivencial. A Mãe deve ter uma boa relação com seu Animus (masculino) no sentido de poder ser e passar para a criança a positividade dos valores do herói. Valores como coragem, determinação, disciplina, limites e aceitação dos seus fracassos. Para a criança sentir que pode fracassar, deve sentir que também será acolhida quando isso ocorrer, mas ao mesmo tempo deve sentir que se não caminhar com as próprias pernas sempre irá fracassar. Tal desenvolvimento psicológico pode ser considerado como uma boa relação entre mãe e filho. Neste plano lunar-feminino a idéia de que podemos buscar e desbravar novos horizontes é possível já que sempre haverá um retorno a morada primeira. Já na fase solar da consciência em que o pai entra trazendo seus valores luminosos e racionais (onde também há o perigo de se perder em uma rigidez), a criança não deve fracassar porque deseja conseguir provar seu valor diante do pai.  O amor de pai é esse, pelos valores espirituais e ético-morais. Quanto maior o caráter do sujeito, ou seja, quanto mais definido este for a suas escolhas e implicações com estas, mais amado será. Só após vivenciar essas duas dimensões, lunar e solar, a criança estará apta a lidar com a relação entre elas. Se alguma dessas experiências não tiverem sido realizadas suficientemente as relações se tornam dependentes e patológicas.

Portanto, o conflito patológico é aquele que suprime as forças do ego, dissolve o mesmo e impede que a criança consiga manter sua consciência e orientação intactas. O Ego deve viver sobre conflitos não sob conflitos. Quando isso ocorre significa que para que haja uma ligação satisfatória, deve ocorrer uma vivência de reatualização das partes opostas da personalidade, ser possível viver um pai ou mãe que possam dar o que realmente faltou (o psicólogo serve muito bem a isso). Se uma pessoa consegue se desvincular de outra vivenciando um luto temporário é possível dizer que esta, consegue lidar com suas ambivalências afetivas de forma saudável. Ou seja: “Ansiar pelo impossível (tendo) raiva desmedida, choro impotente, horror ante a perspectiva de solidão, suplicas lastimosas por compaixão e apoio...” (BOWLBY, 2006, p. 131.)sendo estes os sentimentos de uma perda. E também se desorganizar e se reorganizar novamente, conseguindo a vivência do luto tal qual uma boa constituição em seus relacionamentos, é necessário a todas as pessoas para que possam superar a perda. Não só na morte, mas no distanciamento de um ente querido tal vivencia deve ser possível e expressa significando que se uma pessoa consegue se desvincular de alguém, é porque há a possibilidade de um vínculo autêntico e maduro.  



terça-feira, 20 de março de 2012

“Inri Cristo”: a revelação de um absurdo

Nosso país na atualidade se situa em um momento favorável segundo muitos especialistas, dizem até que estamos fadados a ser uma potência econômica, mas como se sabe que quanto mais desenvolvido é um lado, mas primitivo é o outro. Se por um lado podemos correr o risco de sermos a próxima potência econômica, podemos também ser a próxima Alemanha nazista, principalmente devido a ausência de desenvolvimento cultural. O que se vê é um caos, mas o que podemos dizer a respeito disso, positivo, negativo? Difícil dizer, não dá para se julgar ou ter uma idéia precisa de nosso tempo em nossa cultura brasileira, um país em que boa parte da constituição fora descaradamente reproduzida dos países “considerados” de primeiro mundo. Mas como um país que é tão plural em suas manifestações religiosas lida com isso, onde esta a comunicação entre os seguimentos, as minorias? Nosso país é tão incomum que uma figura muito popular vem ganhando as “grandes” mídias de uma forma bem peculiar, tal sujeito se autodenomina Inri Cristo, a princípio seu nome era Iuri um menino judeu, foi adotado por um casal de alemães que o criou como um filho legítimo, (http://www.inricristo.org.br/index.php/pt/historia/inri-revelacao).

Lendo sua história em seu site, o leitor começa a perceber a revivência (ou tentativa desta), de toda a trajetória de Jesus Cristo, olhando os trejeitos, as falas e até as roupas, todo o figurino tem o único e objetivo propósito de se mostrar como um profeta, o Cristo reencarnado. Em entrevistas a canais de TV de emissoras brasileiras, muitas são as reações diante de tal personalidade, perseguição, revolta, ironia, sarcasmo e até discussões teológicas acaloradas. Sem duvida nenhuma uma figura muito visada e curiosa no meio midiático, serve única e exclusivamente para levantar o ibope de várias emissoras que apostam no que mais dá e sempre deu visibilidade, o absurdo. As pessoas criticam, condenam, odeiam, riem e expressam as mais diversas reações, mas de qualquer modo é nítido o desejo de olhar, de tentar entender ou mesmo de se deixar abater pelo absurdo de uma exterioridade estéril, porém verdadeira em sua aparição absurda.

Ao ver tal personalidade não se consegue estabelecer um liame entre a loucura e a normalidade, sua loucura é organizada, possui um cosmos próprio e um sentido intrínseco. Poderíamos encontrar nele várias incongruências, mas até entre nós, quem não possui suas incongruências? O curioso é que faz sucesso, as pessoas querem ver, elas gostam da personalidade de “Inri Cristo”, gostam de sua loucura? Poderia arriscar que Iuri fora possuído em sua psicose pelo arquétipo (arquétipo=tipo arcaico) de Cristo, o Antropos, o homem completo e total, o alfa e o ômega. A pessoa quando não possui um ego estruturado pode ser carregada por suas emoções e seus humores, diz-se que é dominada por uma imagem arquetípica principalmente se essa imagem é definida historicamente e reconhecida em analogia com diversas outras culturas. Portanto podemos vislumbrar que existe sim uma patologia, existe um discurso em que as pessoas reconhecem um delírio. Porém, o que faz com que elas se atraiam por esse delírio que é um absurdo em sua natureza? O que a loucura absurda da fantasia de Cristo que se crê verdadeira possui? Sim, uma fantasia externa das pinturas católicas de Cristo, que se crê real e a reencarnação autêntica de Jesus. Talvez muitos líderes religiosos sejam realmente isso, uma caricatura da divindade. Nesse sentido qual a diferença entre a loucura de “Inri Cristo” e tais líderes religiosos que gritam as pessoas e prometem fazê-las andar com um simples toque?

“Inri Cristo” traz em suas aparições a revelação do absurdo que subverte a ordem, faz com que os próprios crentes nos descrentes (fundamentalistas), vejam seu próprio absurdo, sua própria fantasia exterior em que aceitar ou negar uma casca (imagem), define o seu crer. Sim o absurdo é esse, a própria vivencia da casca (“Inri”), supera em sua realidade o crer do crente-descrente. Nesse sentido Iuri Cristo revela esse olhar que deseja vislumbrar o próprio caos, a própria fragmentação esquizofrênica de uma sociedade que por não conseguir mais crer – devido a perda da alma no advento da “ciência” natural – tornou-se a reprodução de uma caricatura renascentista. Assim, muitos se esquecem de que a figura mítica de Jesus Cristo que dividiu a história do ocidente em seu mito era o louco, o gregário, que se acreditava messias e que fora rejeitado por todos. Quero dizer com isso que nossa sociedade possui muitos Cristos por ai, seres gregários e loucos que jogam na cara das próprias pessoas através da verdade de seu delírio a mentira da tentativa de se viver uma verdade absoluta, uma verdade caricaturada.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Luiza e Estupro midiático: Um fenômeno coletivo.

Desde a semana passada ocorreu nas redes sociais um fenômeno que mais se assemelha a uma epidemia. No vídeo de uma propaganda veiculada no Youtube, uma família participa de um comercial de venda de imóveis e o nome Luiza é citado como ausente, "... menos a Luiza, que esta no Canada". Ou seja, apenas um nome ganha repercussão nacional em poucas horas sem sequer a garota esperar que isso pudesse ocorrer. Ao mesmo tempo o programa Big Brother Brasil (Reality Show) veiculado pela Rede Globo de Televisão, publica em várias mídias um suposto estupro ocorrido em uma das festas do programa, onde um dos participantes fica bêbado juntamente com outra participante, vão ao quarto e transam debaixo do edredom. No primeiro acontecimento (Luiza), podemos perceber que ocorre um movimento da coletividade em que tornar um anônimo famoso pode acontecer a qualquer momento, que as pessoas quiserem. O colocar em evidência pode ocorrer com qualquer um do dia para a noite. Muitos criticaram as duas notícias por soarem muito superficiais, como se nosso país fosse desprovido de cultura e o que impera é na verdade um enorme tédio.

Partindo do pressuposto que nos enraizamos de um inconsciente coletivo, somos todos seres históricos por natureza, todos, sem exceção estamos determinados pelo passado e futuro na construção de um presente. Tal fenômeno de dar evidência, visibilidade e exposição, atualmente fundamenta nossa sociedade onde todos confundem exposição com existência. Ou seja, para muitos cidadãos que se julgam sem valor e importância, talvez a única forma de se sentirem “alguém”, é ganhando visibilidade, aparecendo na mídia independente de como isso se dá. As mídias nesse sentido (principalmente a Globo) se tornam o único meio de consideração da própria existência, digo, não a mídia propriamente falando, mas o que esta representa, o ganhar existência a partir dos olhos dos outros, mas não só isso, a coisa chega ao ponto de se transformar em uma reificação. Nesse sentido, precisar forjar um estupro para ter visibilidade, ibope, é na verdade um sensacionalismo neurótico que é compensado na ironia coletiva da Luiza (identidade anônima), como se as pessoas preferissem reconhecer um anônimo (dar visibilidade a um nome) ao ver um exibicionismo fetichista de identidades produzidas e vazias de sentido sendo colocadas para a boca abaixo dos brasileiros.

Ou melhor, é preferível reconhecer-se como anônimo a ser como a mídia quer que sejamos (loiras, peitudas, bundudas, morenas, musculosos etc). Como se a mídia tivesse que definir nossas subjetividades, dar existência a formas de ser. Isso soa como pura arrogância e pretensão, um auto endeusamento. Porém ocorreu um movimento que contrapôs tudo isso, é como se o inconsciente coletivo “dissesse”, "Podemos muito mais do que isso, podemos dar evidência a um anônimo de verdade, tanto quanto vocês (olha a ironia), podemos evidenciar Luiza". Luiza, portanto representa a pessoa comum, aquém e além da mídia, a subjetividade que pode ser como quer e ainda sim ter uma identidade, ser alguém. A criatividade está nisso, o espírito das profundezas do inconsciente parece desejar isso de todos nós, que reconheçamos em nós mesmos, a capacidade de dar um sentido de existência a nós mesmos saindo de toda e qualquer fôrma que é na verdade um estupro midiático.

“O vento sopra onde quer. Ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai. Assim é todo aquele que é nascido do Espírito” - João 3:8.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Morte: Uma perspectiva, um olhar.

O que se pode dizer a respeito de uma experiência tão densa, emocional e angustiante quanto essa. Para algumas pessoas ela não passa de uma fantasia, ilusão efêmera muito distante que se criaram por ignorância da vida além, para outros ela gera tanta ameaça a ponto de uma vida presentificar constantemente a morte esquecendo-se de si, isso quando o conhecido se tornou tão mais angustiante que o desconhecido. Outros lidam com ela de forma esperada, chorando quando se tem que chorar, lastimando quando se tem que lastimar e superando uma perda que se deve superar. São infinitas as reações diante dessa experiência o que nos impõe a difícil e árdua tarefa de – como psicólogos – definir o que é uma “elaboração do luto”? Kubler-Ross (2008), conseguiu descrever o processo de luto em algumas fases: Negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Mas o que afinal significa aceitar a morte de alguém ou a própria finitude da existência?

O que sabemos talvez, é como funciona a facticidade da perda, aprendemos a viver sem o outro ou apenas com sua memória. Aceitação aqui pode ser entendida como aquela experiência de lançar mão dos recursos mais irracionais, aquele que sofreu e passou pela angústia da falta, aquele que se permitiu chorar, bater no peito, e reconhecer para si mesmo a importância de uma alma que deixou de ser um figurante e se tornou protagonista desta vida, ganhou centralidade em uma existência. Por isso, triste é daquele que não vivencia a cada momento a possibilidade da não-existência, esse sequer apreendeu o significado da própria vida no momento único que é o encontro com o outro. Difícil é viver com a morte no estômago, como um vazio sempre a sugar, a morte nesse sentido é a perspectiva da vida, em que cada momento é síntese, eternidade, esvaziamento do tempo. A morte mais do que uma fase ou uma experiência sofrida precisa ser apropriada como um olhar, uma perspectiva da vida. Não há receita para isso, só a constante sensação de impotência-insegurança-aceitação-esvaziamento-resignação-felicidade.

A felicidade da morte é branda, nublada e opaca, mas extremamente consistente, certa, convicta e eterna. É forte em sua fraqueza, segura em sua insegurança e plena de significado em seu esvaziamento. Antes uma vida dramática e autêntica, do que apática e imprópria. Sacrificamos o viver ao tentar prever e pré-significar a experiência do morrer, não adianta o prever, o esquadrinhar e o controlar as experiências da alma, somos imagens da alma. “Não somos nós quem imagina, mas nós que somos imaginados” (HILLMAN, 1988). A morte como sentimento de decrepitude, depressão, melancolia, fim, esvaziamento e dissolução da vida é a maneira a qual somos imaginados. Descer (se abandonar, perder) ao reino dos mortos é inseparável da experiência de profundidade da vida. Só assim há a possibilidade de vivência profunda da mesma. Nesse estado de ser, já se compreende toda a vivência da morte como uma metáfora que ilustra todo o viver, sem isso, a vida se assemelha a uma fuga, tendo um tempo limite para se safar. E a morte é literalizada na paranoia. Só é possível ser no não-ser e talvez só consigamos realmente vivenciar a vida plenamente, ao morrer a cada instante, ao desfazer-se de todo nosso tesouro por um momento de significado.

E agora? Como faço?
Se não é estar contigo na dor,
Para lembrar-me da carne!
E assim dar a luz a mim mesmo.

(Renato Santiago)